Visitantes

domingo, 19 de junho de 2016

Convicção e Tolerânica

Autor: Rev. Valdinei Ferreira
A cultura moderna está mais tolerante em relação à religião, porém mais intolerante a qualquer reivindicação religiosa de exclusividade e verdade. Isso significa o seguinte: uma religião – não importa se cristã ou não – será aceita socialmente se renunciar às suas convicções mais profundas a respeito de Deus e do modo como Deus deseja que os seres humanos conduzam sua vida neste mundo. No fundo, as religiões nas sociedades modernas foram reduzidas à categoria de folclore e, nessa condição, são bem-vindas à vida em sociedade, desde que se apresentem como algo do passado e com toque de costumes exóticos. É uma espécie de lembrança de onde vieram aquelas pessoas e em que acreditavam seus antepassados. Entretanto, o tempo todo, o que está sendo dito é que tais pessoas já não acreditam que o seu Deus seja único e verdadeiro e muito menos que tenha revelado normas éticas para a vida em sociedade.
Está em curso a transição de uma cultura em que a fé num Deus único era aceita sem discussão para uma cultura na qual a ideia de um Deus único e verdadeiro é questionada e, não poucas vezes, até hostilizada. Não se trata aqui de fazer a roda da história girar para trás, numa busca saudosista do período em que o cristianismo, católico ou protestante, era hegemônico na cultura ocidental. O grande desafio é mostrar – com palavras e atitudes – que a convicção religiosa que afirma que Jesus Cristo é o único e verdadeiro Deus não implica qualquer tipo de discriminação ou intolerância em relação a pessoas, culturas ou religiões. Cristãos acreditam que, justamente porque há um único e verdadeiro Deus e os seres humanos foram feitos à imagem e semelhança dele, todas as pessoas são portadoras de dignidade e merecedoras de amor, cuidado e carinho. O paradoxo do cristianismo é este: a crença no único e verdadeiro Deus é fonte de inclusão e não de exclusão. Assim, porque há um só Deus, cristãos afirmam:
-Os seres humanos são iguais entre si, pois são criaturas.
-Nações e etnias são iguais em dignidade.
-Maiorias e minorias são iguais em responsabilidades e direitos.
-Se há um só Deus, todos – grandes e pequenos – haverão de responder por seus atos e omissões diante dele no dia do Juízo.
O mais importante a ser lembrado é que Deus se revelou em Jesus de Nazaré, e nunca pisará na face da terra alguém mais inclusivo que ele. Recordemos:
-Ele recebeu crianças, quando crianças não eram consideradas na família e na sociedade.
-Ele tocou e curou leprosos, quando leprosos eram expulsos do convívio social.
-Ele valorizou as mulheres, quando mulheres eram tidas como seres inferiores.
-Ele impediu um apedrejamento, quando a ideia de Direitos Humanos era ainda completamente desconhecida.
Que cristãos tenham cometido e continuem cometendo erros é fato inegável. Todavia, a fonte de seus erros não deve ser procurada na crença na existência de um único Deus, ou seja, cristãos não erram porque acreditam que existe um só Deus, erram quando não acreditam o suficiente para seguir o exemplo de amor e doação de Jesus Cristo.

 Reverendo Valdinei Ferreira é pastor na Catedral Evangélica de São Paulo, 1ª Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo.